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Crônica da (não)beleza

Sobre a beleza das pessoas só existem duas respostas. Aquelas que, por um acidente genético, não tiveram a oportunidade de escolher a feiura. E as outras, que por uma sucessão de outros acidentes, ficaram longe do gen das capas de revista.

Na fase adulta, depois de passar pela idade média da estética governada por pelos e espinhas, a beleza se coloca ao alcance de todos. Para aquelas do primeiro tipo, basta acordar para inspirar poetas e pintores. Algumas conseguem fazer isso ainda dormindo, não se prezam a uma remela se quer.

Já para as outras, a beleza deve ser construída todos os dias. Tornar-se bela ou belo, nesse caso, é um trabalho de carpintaria que envolve tapar buracos, esconder marcas e revestir as formas. Enfim, ativar o poder da negação.

E diante do espelho não adianta amaldiçoar a genética ou desejar a morte de todas as pessoas belas para se sentir confortável. Isso só vai lhe causar rugas e culpa, dois elementos que não contribuem nada com a beleza. E o espelho não vai mudar de opinião, isto é fato.

Mas o mercado é generoso, a indústria da moda, da cosmética e do estilo atende a domicílio, chegam à porta de casa em sacolas, potes e pacotes. É possível comprar, alugar, e até emprestar a beleza.

Enquanto as do primeiro tipo se dão ao luxo de sair de casa de pijama para estrear o look do dia, as outras não se atrevem ir na padaria sem pintar a cara e desconstruir o cabelo.

Não se sabe desde quando é assim. Mas manter o ciclo só reforça esse gerúndio. Do contrário, é cair no limbo da vergonha e perder amigos no facebook.

Em verdade, sobre as pessoas do segundo tipo, no que lhes faltam a beleza, sobra em coragem, determinação e criatividade. Coisas que os belos e as belas não podem entender. Talvez justamente por isso, a natureza tenha lhes compensado.

 

*Renato Lima é jornalista, acadêmico de psicologia e observador de comportamento. As vezes fala, as vezes pensa, outras vezes faz os dois, ai ele escreve.