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Breve estória de um povo que foi para a rua

Era uma vez um povo que vivia em uma terra muito rica e muito bonita. Mas neste lugar havia muitos problemas, muitos crimes, muitas doenças, e, principalmente, muitos desmandos e roubos. Quem roubava? Principalmente aqueles que deveriam cuidar do povo, os governantes.

Em vários séculos, poucas vezes esse povo cansou e se revoltou. Houve uma vez que eles se reuniram, em uma cidade onde poucos tinham muita terra e o restante só tinha a pobreza, mas foram encurralados, e dizimados. Houve outra vez que eles foram pra rua, mas houve mortes, torturas e demorou para que a paz voltasse. De outra vez, eles derrubaram um presidente. Veio outro, e outro, e outro.

As coisas melhoraram um pouco, mas os desmandos, os roubos, eles continuaram. O povo, então, combinou de se encontrar, ir para a rua, e protestar, em duas cidades dessa terra, para que a passagem de ônibus ficasse mais barata. Os governantes mandaram a sua Polícia bater no povo.

O povo não recuou. Continuou a se reunir e exigir mudanças.  A revolta se espalhou por outras cidades e o número de pessoas aumentou a cada dia.  Viraram milhares, milhões. Os motivos também multiplicaram. Agora o povo não queria só pagar menos pela passagem de ônibus.

Queria tanta coisa, tanta coisa. Queria tudo aquilo que não teve em tantos séculos de muito silêncio. Alguns nem sabiam o que queriam mais. Uma parte desse povo começou a exagerar e fazer coisas feias e violentas.

Mas a maioria continuou a ir para as ruas apenas para reclamar do que achava ruim. A revolta, que muitos chamaram de “Revolução do Vinagre”, não se sabe direito porquê, ficou incontrolável. O preço da passagem diminuiu. Mas o povo continuou protestando e conseguiu fazer os poderosos ficarem com medo.

E agora? Para onde vai essa estória?

Para onde o povo quiser. É só ele saber disso e saber usar isso.

 

*Marta Ferreira tem 40 anos e é jornalista desde 1996. Participou dos movimentos em que o povo pediu a saída de Fernando Collor de Mello e lamentou quando o povo o colocou de volta no Congresso. Espera que o povo saiba, agora, aproveitar o poder que tem, já que se deu conta dele.