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Novas perspectivas em cima de uma bicicleta

Entre uma escapada do pé do pedal aqui e uma desequilibrada ali, vou reaprendendo a andar de bicicleta. Desta vez, o desafio é maior de quando eu aprendi a primeira vez. Agora, as lições dizem respeito, principalmente, a andar em meio aos carros, e não mais no quintal de casa ou naquela rua sem movimento, como era na minha infância.

A bicicleta nunca deixou de ser o meio de transporte principal de inúmeras pessoas, mas hoje já alcançou até um certo status como uma ótima forma de praticar exercícios e também como lazer. Por exemplo, não me recordo de o mercado, até pouco tempo atrás, oferecer tantas opções de acessórios e modelos de bicicleta. Isso comprova um número cada vez maior de adeptos à prática – o que eu considero ótimo, aliás!

Aprendi a andar de bike tardiamente, já estava com sete, oito anos de idade. Agora, décadas depois, o namorado me ensina tudo o que posso e não posso no trânsito de Campo Grande. E ele fala com a propriedade de quem anda mais de 20 km por dia, para ir e voltar do trabalho numa bike. Aliás, a bicicleta só foi comprada há um ano por incentivo dele.

Pois bem, dia desses fomos ao cinema pedalando. Lá se vão uns 9 km da casa dele até o shopping. De legging, camiseta, tênis e capacete na cabeça, acrescentei um pouco de ânimo e força nas pernas para ir ver o Robert “Homem de Ferro” Downey Jr (que valeu todo o esforço, aliás). Lá fomos nós! Confesso, a ida não é muito fácil. Apesar da tranquilidade de andar na ciclovia – ainda que precisando de alguns ajustes para ficar melhor–, a subida da Afonso Pena é um teste de resistência, com várias paradas para recuperar o fôlego de iniciante na atividade. Chegando ao destino, você ainda tem que “estacionar” a bike e acionar o alarme (prendê-la a um lugar seguro com corrente e cadeado), e torcer para ela estar lá quando retornar.

Ignorando um ou outro olhar estranho, já que na Província de Campo Grande o dress code determina que você tem que se produzir para ir ao shopping como se estivesse indo a uma festa, assistimos ao filme e retornamos para buscar as magrelas, que sim, estavam lá nos esperando. Com a descida na volta, até discutir se o filme era bom ou não, fica mais tranquilo… sobra mais fôlego. Até, que, em um cruzamento, tinha um carro no meio do caminho. Fizemos um sinal gentil para o motorista, avisando que aquele espaço vermelho no asfalto, conhecido como faixa de segurança, tem que ficar liberado para os ciclistas atravessarem. E então, o motorista abaixou o vidro do carro e esbravejou: – E isso é hora de andar de bicicleta na rua?!

Pergunto: tem hora para andar de bicicleta? Então, a novidade é que temos um toque de recolher a ciclistas? Não, gente, não temos! Eu, Michelle, na minha condição “híbrida” de motorista, ciclista e pedestre, estou em constante aprendizagem, buscando respeitar o espaço de cada de um. Essa é uma função de todos. Quando estou dirigindo, e um ciclista invade meu espaço, é óbvio que não concordo, mas isso serve para eu me situar quando estiver na posição dele, na minha bicicleta. E quando estou na bicicleta, tenho toda a atenção voltada ao trânsito à minha volta, e busco sempre respeitar as leis de trânsito. Se todo mundo ao menos se esforçar nisso, com certeza o estresse será menor e acidentes serão evitados. Ainda falta muito dessa conscientização na cidade.

Agora, não posso deixar de mencionar que além do “bloco dos sem-noção”, que inclui o motorista ditador que citei ali, tem também o “bloco do gentileza gera gentileza”, uma galera que não tem preguiça em ser gentil no trânsito e que está aprendendo a respeitar o espaço dos ciclistas, que tem se tornado cada vez maior na cidade. E não é para menos, porque andar de bicicleta é ótimo! Você vê e respira a cidade melhor, pratica exercício e ainda fica em paz com o ambiente. Então, fica o convite: vamos pedalar?

*Michelle Araújo, 31 anos é jornalista e blogueira. Tenta levar uma vida saudável, frequentando academia e andando de bike nos fins de semana.